Crédito à habitação cai mais de 17%
Após vários anos em expansão, o mercado da habitação está agora a regredir. O número de contratos para compra de casa no segundo trimestre do ano caiu 17,8% em relação ao mesmo período de 2007, mostram dados da Direcção-Geral do Tesouro. Houve menos casas vendidas no Verão de 2008, fruto da actual crise e da saturação do sector da construção.
Também o montante concedido nos contratos tem diminuído. Apesar do valor médio de cada empréstimo rondar os 96 mil euros, o montante global sofreu uma queda de 15,8% no segundo trimestre face ao período homólogo de 2007.
Para José Eduardo Macedo, presidente da Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal (APEMIP), os números não são surpreendentes, pois o sector “tinha previsto uma quebra de 10% no volume de transacções de prédios urbanos”. “Estima-se que em 2008 as vendas fiquem nas 190 mil transacções.” “Isto não é só sinónimo da crise”, diz o responsável, adiantando que “as necessidades dos portugueses estão resolvidas”. Segundo a APEMIP, há 3,6 milhões de famílias e 5,7 milhões de imóveis. “Ainda que existam 700 mil fogos degradados, já foi passada a fasquia dos 100%.”
Face à crise, “no último ano, as pessoas estão mais reservadas e é natural que não troquem de casa”, até porque “como os bancos estão mais selectivos têm deixado de financiar o imóvel na totalidade”. É nos imóveis de valor mais baixo que há mais vendas. “Para a maioria das famílias, como não existe oferta no arrendamento e face à subida dos juros, a tendência é vender as casas e comprar outras mais baratas e periféricas.” Quem tem mais dinheiro, acrescenta, “está a aguardar para ver como evolui o mercado”.
Em Junho, existiam 1,6 milhões de contratos à habitação no valor de 9,4 mil milhões de euros. No regime geral, onde estão todos os novos créditos, o número de contratos ultrapassava os 1,2 milhões.
O Índice Confidencial Imobiliário, que mede a evolução do valor das habitações, mostra que a valorização média anual em Julho de 2008 foi de 1%, contrariando a desaceleração sentida desde 2006. O Algarve foi a região que sentiu maior volatilidade nos preços.
JUROS INFLUENCIAM O NÚMERO DE EMPRÉSTIMOS CONCEDIDOS
O número de créditos à habitação concedidos às famílias portuguesas tem oscilado de acordo com a evolução das taxas de juro praticadas. Até à entrada no Euro, os juros eram regulados pela Lisbor.
Olhando para a evolução dos contratos, é fácil perceber que os maiores picos surgem quase sempre aliados a momentos em que os juros atingem valores mais baixos.
A explosão do crédito, sobretudo à habitação, teve lugar no fim dos anos 90, período em que as taxas rondavam os 3%. Mas 2002 abriu a época de todos os sonhos, com a Euribor a bater valores mínimos e a descer quase até aos 2%. Foram quatro anos de aparente prosperidade. Do final de 2006 até hoje, os juros entraram numa espiral de crescimento imparável.
FALTA CONFIANÇA NO MERCADO DE ARRENDAMENTO
Para evitar que imóveis recentes fiquem sem comprador, José Eduardo Macedo diz que “era recomendável” um aumento da oferta no arrendamento. Contudo, lembra que “as pessoas não têm confiança para colocar as suas casas no mercado de arrendamento”. “A pessoa não está para receber dois meses de renda e só recuperar o imóvel quatro depois ,já degradado”, diz, sublinhando que “enquanto a Justiça for permissiva o mercado de arrendamento não vai evoluir”. A falta de oferta é, aliás, motivo para a existência de “preços acima do razoável” no mercado.
“NÃO PODÍAMOS CONTINUAR AO RITMO DOS ÚLTIMOS DEZ ANOS” (José Eduardo Macedo, Presidente da APEMIP)
Correio da Manhã – O que traduzem estes números?
José Eduardo Macedo – Não é de espantar, pois vivemos num quadro maduro. As necessidades dos portugueses estão mais ou menos resolvidas. Quem hoje compra casas são novas famílias, que se constroem ou que se dividem. E os que mudam para ter melhor qualidade de vida.
– Há menos pessoas a trocar de casa?
– Neste último ano, as pessoas estão mais reservadas. Como os bancos estão mais selectivos nos créditos, tendo deixado de financiar o imóvel acima da avaliação, a valorização não é imediata, é mais lenta. As pessoas estão mais contidas e é natural que não troquem de casa. O País não devia ser tão permissivo na construção. O ritmo das transacções tem naturalmente que diminuir, sobretudo com a crise que estamos a viver.
– Que previsões faz para o futuro?
– Ou as empresas são dirigidas não para a construção de prédios urbanos mas para obras de engenharia do Governo ou as pessoas vão ter de encontrar outra solução. Na reabilitação também há mercado.
– Há riscos para as empresas?
– Se há menos projectos, há menos trabalho. Mas não podíamos continuar ao ritmo dos últimos dez anos.
NOTAS
ILHAS: DESCIDAS
Na Madeira, o número de contratos à habitação celebrados desceu 31 por cento. Nos Açores, a queda foi de 6 por cento
VALOR: MALPARADO
Em Julho, as famílias portuguesas deviam mais 533 milhões do que em igual período de 2007. O malparado vale já 2,7 mil milhões



